

Xote do Cançaço
A História por Trás da Música
Xote do Cangaço nasceu como um momento de reflexão profunda sobre a vida de Lampião, o Virgulino Ferreira da Silva — figura que atravessa o imaginário nordestino como herói e bandido, justiceiro e criminoso, dependendo do olhar de quem conta.
Lampião perdeu o pai de forma injusta. Essa ferida virou revolta. E a revolta virou destino.
Nascido em 7 de julho de 1898, em Vila Bela (hoje Serra Talhada, Pernambuco), Lampião cresceu no sertão duro, onde sobreviver era a primeira lição e coragem era a segunda. Infância de trabalho pesado, de sol rachando, de luta diária para escapar de uma vida que parecia não ter saída.
O sertão daquela época era terra de coronéis, de injustiças, de força bruta. E foi nesse ambiente que Virgulino se moldou — até se transformar em Lampião.
Por que escrevi essa música
Eu fiz Xote do Cangaço como uma forma de lembrar essa história que todo nordestino carrega na memória. E eu sou nordestino. Sou filho de Judith Ferreira, e no nome dela já carrego um pedaço dessa ancestralidade.
Gosto da minha cultura. Gosto da força do meu povo. Reconheço a riqueza da nossa música e a potência de quem viveu marcado pela seca, pelos coronéis, pelos políticos, pelos bandos, pelas famílias e pela resistência.
O Nordeste é terra de:
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embolada
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boiada
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forró
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xaxado
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cavalo-marinho
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ciranda
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lapinha
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festas juninas
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milho assado
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pamonha
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canjica
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macaxeira frita
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cuscuz de milho
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queijo coalho
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manteiga da terra
Só essa lista já dava um livro inteiro.
Tudo isso virou memória dentro de mim. E dessas memórias nasceu Xote do Cangaço.


Maria Déa — A força da mulher no cangaço
Na música, eu também quis falar de Maria Déa, a mulher que rompeu a vida doméstica para se tornar revolucionária dentro do cangaço.
Mulheres do sertão sempre foram fortes. Não tinham medo à toa. Já nasciam sabendo sobreviver com pouco — e às vezes com quase nada.
Maria Déa representa essa força. Representa minha mãe. Representa tantas mulheres nordestinas que seguraram o mundo com as próprias mãos.
O Nordeste de ontem e o de hoje

O Nordeste cresceu. Mudou. Se reinventou.
Hoje é cheio de vida, de progresso, de cultura pulsando. Mas o passado continua sendo história — e história precisa ser alimentada para não enfraquecer.
Eu, Junior Natureza, filho de Judith Ferreira da Nóbrega, escrevi essa música para isso: para manter viva a memória do que fomos e do que somos.

Padre Cícero — Cultura Popular e Cordel
Não é só pela devoção de Lampião que o nome de Padre Cícero Romão Batista atravessou o tempo. Ele se tornou um dos pilares da cultura popular nordestina, presença constante nos folhetos de cordel, nas feiras livres, nos versos cantados e nas histórias contadas de boca em boca. O povo transformou o “Padim Ciço” em símbolo de fé, proteção e resistência — um homem que virou mito. Nos cordéis, ele aparece ao lado de Lampião, Maria Bonita, Corisco e tantos outros personagens que formam o imaginário do sertão. Essas histórias, cheias de humor, coragem e criatividade, continuam vivas até hoje, penduradas em barbantes nas feiras do Nordeste, lembrando que a cultura do nosso povo é feita de memória, poesia e verdade. O cordel mantém acesa essa chama, e é por isso que, ao falar de Lampião, eu não poderia deixar de lembrar do padrinho que virou lenda.
Momentos da poesia
A lembrança é minha companheira,
e dela eu não quero largar.
O tempo deixa marcas,
passando as emoções
que carrego do que vivi.
Nessa estrada de barro,
entrelaçada de medo e coragem,
vou seguindo o caminho que me escolheu.

As Marionetes do Bando de Lampião Por Junior Natureza

Fiz as minhas marionetes representando o bando de Lampião. Cada uma delas nasceu das minhas mãos como quem puxa história do barro, como quem costura memória com linha de vento, como quem dá vida ao que o tempo tentou levar.
Essas marionetes foram parte da minha exposição no Auberge de Jeunesse, em Lille — França, e ali, tão longe do sertão, elas dançaram o xaxado no olhar dos franceses, contando sem palavras a força do meu povo.
Lampião, Maria Bonita, Corisco… figuras que atravessaram o Nordeste como trovão, agora atravessavam fronteiras como arte. E eu, filho de Cabedelo, neto de Maria de Queiroz Marinho, levava comigo o mesmo orgulho que carrego no peito desde menino quando minha avó dizia: “Esse menino faz muita arte.”


Lampião e Maria Bonita
Maria Bonita
Lampião
Corisco
Minha Origem — Por Junior Natureza
Eu sou Junior Natureza, nascido em João Pessoa. Passei parte da infância sendo criado pela minha avó, Maria de Queiroz Marinho, mulher de força e sensibilidade que plantou em mim as primeiras sementes da arte. Foi com ela que aprendi a observar o mundo com curiosidade, a valorizar o fazer manual, a sentir a beleza das coisas simples.
Por volta dos meus 10 anos, meu pai me levou para morar com ele e com minha mãe, Judith Ferreira da Nóbrega. E ali eu fiquei dividido entre duas mães — duas mulheres queridas que, cada uma do seu jeito, me deram o melhor que podiam para que eu me tornasse quem eu sou hoje. Tudo foi aprendizado. Tudo foi amor.
Minha avó dirigia a Escola de Artes Alice de Almeida, na Praça Venâncio Neiva. Aquele lugar era um mundo inteiro: arte do coco, tecido, costura, colagem, desenho… Eu cresci vendo mãos transformarem matéria em poesia.
Foi também na casa dela que a música entrou na minha vida. E entrou com destino marcado: meu primeiro violão, de cordas de nylon, presente da minha avó. Aquele violão virou meu parceiro, meu caminho, meu futuro.
Com o tempo, descobri que a arte não tinha limites. Virei compositor, letrista, ator, artesão, guitarrista, e tantas outras coisas que aprendi seguindo minha curiosidade e minha habilidade natural.
Eu não imaginava que um dia iria compor Xote do Cangaço. Mas hoje entendo: tudo começou ali — entre duas mães, uma avó artista, um violão de nylon e um menino que só queria fazer arte.
Minha avó dizia:
“Esse menino faz muita arte.”
isso quer dizer:
não é só criatividade,
é travessura,
é bagunça,
é derrubar as coisas,
é inventar moda,
é deixar o mundo de cabeça pra baixo
só pra ver como ele fica.



