


Nossa História
*Há histórias que não cabem em livros. Elas vivem nas lembranças, nas noites que ninguém fotografou, nas conversas que se perderam no barulho das guitarras.
A minha versão do underground de João Pessoa não está escrita em papel — está guardada na cabeça, nas mãos que tocaram, nos olhos que viram, nas vozes que gritaram.
É a história de um tempo em que tudo era improviso, mas nada era mentira.
É o que eu vivi. É o que eu lembro. É o que eu quero contar agora.*

Momentos do Studio do Tovinho em Pernambuco


A Jaguar no Centro do Palco
“DNA FujiGen Gakki”:acabamento perfeito
produziu a maioria das Fender Japan dos anos 80
braço confortável
ferragens japonesas
humbuckers cromados típicos
Minha Guitarra Branca
A Companheira das Minhas Estradas Sonoras
No meio do palco vazio, sob a respiração silenciosa do teatro, ela estava lá:
a Fender Jaguar prateada, imóvel, solitária, como se esperasse o primeiro acorde do mundo.
A luz vinha de cima, fina, quase tímida. Mas bastava tocar o metal do corpo para que tudo se transformasse. O prateado refletia o feixe como água viva, como se a guitarra tivesse um coração pulsando sob o verniz.
Era um brilho que não era só brilho — era memória.
Aquele instrumento que um dia ficou esquecido numa igreja, guardado numa sala qualquer, agora ocupava o centro do palco como uma entidade. Não havia público. Não havia banda. Não havia som.
Só ela. E a promessa do que viria.
O palco inteiro parecia respirar ao redor da Jaguar. O cabo enrolado no chão, a sombra projetada no piso de madeira, o silêncio que antecede o primeiro ataque — tudo isso criava uma espécie de ritual. Como se a guitarra estivesse ali para lembrar que a música começa antes do músico. Começa no objeto. No destino. No encontro.
E quando a luz tocava o metal, ela respondia. Refletia. Vibrava. Chamava.
Era como se dissesse: “Eu estou aqui. A história começa quando você me pegar.”
Há instrumentos que a gente compra. E há instrumentos que escolhem a gente.
A minha guitarra branca é desse segundo tipo. Uma Fender japonesa, de design limpo e elegante, que carrega no corpo um brilho próprio — desses que só os instrumentos feitos com alma têm. Ela chegou na minha vida como quem chega devagar, mas fica para sempre.
O corpo branco, sólido, sem escudo, sempre me chamou atenção. Mas foi no toque que ela me ganhou: um som cheio, quente, com presença, desses que respondem ao menor gesto da mão. Com o tempo, fui deixando ela cada vez mais com a minha cara. Troquei os botões de ferro por botões plásticos brancos, simples e bonitos, como quem veste o instrumento com a própria identidade.
E como eu nunca fui de aceitar limites, instalei nela um captador MIDI. Queria abrir portas, experimentar mundos, misturar timbres, transformar a guitarra em outra coisa quando fosse preciso. Com a GR‑55 da Roland, ela virou também baixo, synth, textura, distorção surreal — um laboratório portátil de possibilidades.
Mas apesar de toda essa tecnologia, eu continuo fiel aos meus pedais analógicos. Eles são meus velhos companheiros, meus sons de raiz, minha sujeira bonita. Cada pedal tem seu momento certo, sua função, sua história. E eu gosto desse ritual: escolher o set, montar o caminho do som, preparar o terreno antes de entrar no palco.
Dependendo do que vou tocar, monto meu arsenal: às vezes minimalista, às vezes cheio de camadas. Mas ela — a guitarra branca — está sempre no centro. É com ela que eu converso, que eu improviso, que eu descubro novas formas de dizer o que sinto.
Essa guitarra não é só um instrumento. É uma parceira de viagem. É uma extensão da minha mão. É o lugar onde minhas ideias viram música.
E toda vez que eu plugo ela, eu sinto a mesma coisa: é como se o som dissesse “vamos embora, que hoje tem caminho pra trilhar”.
A Linha do Tempo das Minhas Guitarras
Essa guitarra branca que toco hoje é a minha companheira atual — moderna, versátil, cheia de possibilidades. Mas antes dela, existiram outras. E cada uma deixou uma marca, um caminho, um sinal de que a música sempre esteve me chamando.
A história da minha primeira guitarra elétrica é daquelas que ninguém acredita quando eu conto. Eu era menino, ainda aprendendo no violão — ou como muitos chamam, a “guitarra acústica”. Mas dentro de mim já existia aquela vontade ardente de ter uma guitarra elétrica, de sentir o peso do som, de descobrir o que era possível fazer com ela.
Eu não sei explicar como consegui o dinheiro naquela época. Só sei que consegui. E o destino me levou a um lugar improvável: a igreja.
Sim. Foi lá que encontrei minha primeira guitarra. Guardada, esquecida, silenciosa… mas quando a vi, algo mexeu comigo. Um arrepio daqueles que vêm de dentro, como se o instrumento estivesse me chamando pelo nome.
Negociei com o responsável — não sei se era padre, pastor, diácono… nunca entendi muito dessas patentes da igreja. Mas o negócio foi feito. Ele me contou que aquela guitarra tinha pertencido a um guitarrista que tocava ali, e que agora estava parada, esperando outro dono.
E foi assim que ela passou a ser minha. E não era uma guitarra qualquer. Era uma Fender Jaguar.
Eu, menino, sem entender nada de marcas, sem saber o valor histórico, sem noção da raridade… Mas eu sabia sentir. E aquela guitarra tinha alma.
Com ela fiz meu primeiro show. E não foi em qualquer lugar. Foi no Teatro Santa Rosa, em João Pessoa — um dos teatros mais lindos e antigos do Brasil. Eu lembro da luz, do frio na barriga, do som dela vibrando no peito. Foi ali que começou minha jornada como guitarrista. Foi ali que eu entendi que a música não era só um sonho: era um caminho.
Hoje, quando toco minha guitarra branca japonesa — cheia de experimentações, MIDI, pedais, possibilidades — eu sei que cada instrumento que passou pelas minhas mãos me trouxe até aqui.
A Jaguar da igreja. A guitarra branca de agora. E todas as outras que cruzaram meu destino.
Cada uma foi uma porta. Cada uma me ensinou um idioma diferente do som. Cada uma me empurrou para frente.
E eu sigo. Porque guitarrista de verdade nunca para: apenas muda de instrumento, mas continua a mesma estrada.

Gold - Japonesa
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Dois humbuckers fortes, com timbre quente
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Estética branca marcante — primeira guitarra branca
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Ferragens japonesas resistentes
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Timbre perfeito para rock, blues e autoral
Sandro das Estrelas — Guardião da Resistência

Os Três Reais
Os Três Reais eram formados por Guga Grimalde, Rômulo e Júnior Natureza — um trio que misturava rock’n’roll, blues e músicas autorais com a energia crua de quem toca por necessidade da alma.
O nome caiu como uma luva, mas a história por trás dele é ainda melhor.
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Som pesado, sujo, verdadeiro
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Blues rasgado, rock de garagem
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Versões no clima rock’n’roll
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Músicas autorais com identidade forte
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Aquele tipo de banda que não se monta — acontece
Os Três Reais tinham algo raro: magnetismo. Não era marketing, não era estratégia. Era verdade.
A Pegada da Banda
Esse é Sandro das Estrelas. Um amigo, um irmão de caminhada, e uma das figuras mais importantes da cena underground da Paraíba. Enquanto muitos passaram, ele ficou. Enquanto muitos desistiram, ele continuou. Enquanto muitos se calaram, ele manteve acesa a chama da Caixa de Resistência, lá em Santa Rita — um dos últimos redutos da música livre, crua e verdadeira.
Foi nas mãos dele que minha guitarra Gold japonesa branca encontrou abrigo quando precisei deixá-la partir. Aquela guitarra que me acompanhou nos tempos da banda Danger, nos palcos pequenos e grandes, nos shows de rock autoral e nos covers que incendiavam a noite. A primeira guitarra branca que tive. A que abriu caminhos. A que me deu felicidade.
Mas o destino, às vezes, escreve com fogo.
A Caixa de Resistência pegou fogo. Um incêndio que quase consumiu tudo — instrumentos, memórias, sonhos. E no meio das chamas, a minha guitarra Gold estava lá. Queimada, marcada, ferida… mas viva.
Ela sobreviveu. Assim como Sandro. Assim como a cena. Assim como todos nós que carregamos o underground no peito.
Hoje, a guitarra está aposentada. Carrega cicatrizes, mas também carrega história. E Sandro continua lá, firme, mantendo a Caixa de Resistência de pé — renascida das cinzas, como a própria guitarra.
Essa foto é mais que um símbolo. É a prova de que a música verdadeira não morre. Ela queima, mas não desaparece. Ela renasce.

A Guitarra Gold — A Sobrevivente do Underground
O Público que Ia Junto no Ônibus
A banda tinha um fenômeno próprio:
Nós pegavamos o ônibus público para ir tocar… e a maioria das pessoas dentro do ônibus era o próprio público indo junto.
Era quase uma procissão rockeira. Uma caravana espontânea. Uma festa ambulante.
Chegavam no bar e — pá — o lugar lotava na hora. E quando nós iamos embora, o bar esvaziava junto. Era uma coisa tão absurda que virava piada interna.
Isso é o tipo de história que só bandas lendárias têm.
O Dia que o Nome Nasceu
Um dia, nós fomos tocar no restaurante de um amigo. Não avisamos a ninguém. Chegamos lá e… duas mesas.
Tocamos mesmo assim. No final, o dono veio pagar o cachê:
“Aqui estão… três reais.”
Nós caimos na risada. E ali, naquele momento, nasceu o nome:
Os Três Reais.
Simples, genial, perfeito. E o nome pegou porque tinha alma, tinha história, tinha verdade.
Essa guitarra marcou uma era. Foi minha parceira nos tempos em que o som era resistência, quando o underground de João Pessoa pulsava nas noites quentes e nos palcos improvisados. Era uma Gold japonesa, branca — a primeira branca que tive — e com ela vivi momentos de pura felicidade.
Com essa guitarra toquei com minha banda Danger, tocando músicas minhas e também alguns clássicos do rock’n’roll. Ela tinha um timbre forte, direto, cheio de energia — o som perfeito para aquele tempo em que tudo era intensidade e descoberta.
Mas a vida, às vezes, muda o ritmo. Passei por um período difícil e precisei vender a guitarra para um amigo. E foi aí que o destino escreveu uma história que ninguém esperava: a guitarra sobreviveu a um incêndio.
Sim, o fogo tentou levá-la, mas ela resistiu. Queimou, sofreu, mas não se rendeu. Hoje está aposentada — marcada, ferida, mas viva. E quando a reencontrei, senti uma emoção que não cabe em palavras. Ver aquela guitarra novamente, mesmo nas circunstâncias diferentes, foi como reencontrar uma parte de mim.
Ela é mais do que um instrumento. É um símbolo. Uma lembrança de que o som, assim como a alma, pode atravessar o fogo e continuar existindo.
