



Caminhos de Lisboa: Da Ponte ao Trem
Eu caminhava pelo Rio Tejo, olhando para as margens onde sempre me embriago com a beleza dessa cidade. O vento vinha leve, trazendo aquele cheiro de água salgada misturado com memória antiga. Seguia em direção à Ponte 25 de Abril, esse gigante vermelho que sempre me guiou pelos caminhos de Lisboa.
Passei por Alcântara, lugar onde morei por um tempo, a convite de Bruno — uma pessoa muito amável, dono de um bar no Bairro Alto. Ele era fã de uma música minha chamada Habitante do Sol. Essa música não está nas plataformas digitais porque ainda não fiz a gravação oficial dela, mas deixei alguns vídeos informais no YouTube. São caseiros, simples, mas carregam o tempo dentro deles, e por isso têm valor.
A Ponte 25 de Abril me levava para Amadora quando eu ia de carro, mas também podia atravessar o Tejo de barco. Fiz esse trajeto muitas vezes, sempre para o meu recreio, para encontrar amigos e amigas queridas. As amizades construídas ali foram verdadeiras e permanecem até hoje, mesmo que muitos eu não tenha visto mais. O tempo faz isso — abre estradas novas enquanto outras ficam guardadas na memória.
Houve um período em que morei em Amadora. Um lugar interessante, onde vivi bons momentos de alegria. Lembro de muitas madrugadas em que eu terminava de tocar nos bares do Bairro Alto e precisava esperar o trem das seis da manhã. Eu e os músicos ficávamos acordados, deixando o tempo passar enquanto tocávamos nossas composições, numa troca musical da madrugada lisboeta, acompanhada de cervejas e das loucuras que só a noite de Lisboa sabe oferecer.
Teve vezes em que eu pegava o trem e dormia dentro dele, acordando quase na hora de perder o desembarque. O cansaço também fazia parte da vida — tudo caminhava junto: música, alegria, exaustão, amizade, estrada.
Morei por toda parte de Lisboa. Primeiro em Loures. Depois em Odivelas. Depois uma sequência de lugares: Santa Apolónia, Alcântara, Rato… Cada bairro guardou um pedaço meu, como se eu tivesse deixado raízes espalhadas pela cidade inteira.
Minha vida naquela época era tocar nos bares do Bairro Alto. Além do bar do Bruno, tinha também o Espalhafato, o bar do Abdula. Nesse bar toquei com muitos músicos maravilhosos: Léo, Nenem, Elvis, Aluísio, Thiago e tantos outros amigos que cruzaram meu caminho. O Bairro Alto é um lugar onde a noite fica alimentada pelos ruídos e delírios dos turistas, estudantes, artistas e de todo mundo que busca alegria. Assim eram as noites de Lisboa — e assim era o Espalhafato com Júnior Natureza a tocar.
À noite, tudo se misturava: as mesas no caminho, as pessoas subindo e descendo as ladeiras, os becos estreitos, os lugares escuros, e aquela multidão circulando como se a madrugada fosse eterna. Quando a noite avançava, os músicos dos bares e os artistas de rua tinham o costume de se encontrar em frente a uma padaria que vendia sonho de Berlim na madrugada. Aquele pão com creme era uma delícia — e ainda mais quando a fome apertava depois de horas tocando.
Eu escrevo isso para não deixar a memória se perder. A noite, o caminho para casa, os encontros, os sons, os cheiros, os amigos, as ruas… tudo isso fazia parte de mim. E muita coisa acontecia entre o último acorde e a primeira luz do dia.
Sim, quando uma história começa, é difícil chegar à totalidade da sua realidade. Mas cada pedaço que eu conto é uma forma de manter viva a parte de mim que Lisboa guardou.



Esses são os músicos que tocaram Habitante do Sol comigo no Jardim da Estrela, a praça que fica no Rato: Belém, Cece, Quaqua e eu, Júnior Natureza. Todos brasileiros, todos profissionais da melhor qualidade. Eu estava — e estou — com uma equipa incrível.
Tive muita sorte na minha jornada. Encontrei muita gente boa, uma verdadeira família. Imigrantes como eu, cada um carregando o seu próprio desconhecido, suas ilusões, suas buscas, seus medos e suas verdades — verdades que às vezes só se revelam muitos anos depois.
Tenho muito respeito por esses momentos. Eles ficam para sempre guardados nessa janela do tempo, onde a memória não envelhece e o sentimento continua vivo.
Esse vídeo foi gravado no Jardim da Estrela, no Rato. Foi ali, junto com amigos músicos que também tocavam na rua comigo, que fizemos aquela apresentação de Habitante do Sol. Um momento que me traz uma recordação tão forte que quase não cabe em palavras. É como olhar pela janela do tempo e sentir outra vez tudo aquilo que vivi — as lutas, a perseverança, o acreditar, o não desistir.
Isso não quer dizer que somos imbatíveis. Pelo contrário. Muitas peças caem no caminho, e é justamente por isso que nos transformamos. Sim… nos transformamos.


