Artesanato
Meninos curiosos
Meninos curiosos buscam o desconhecido, tentam aprender com o olhar atento e o coração aberto. E quando descobrem, se deleitam no aprendizado — repetem, aprimoram, reinventam. É assim que nasce o criador: da curiosidade que vira encanto, e do encanto que vira arte.

Na Oficina, Meu Lar de Criação

A oficina é meu lar. É o lugar onde me sinto inteiro, onde o pensamento viaja por universos desconhecidos. Ali, minha mente se abre — imagino mil projetos, tantas coisas que posso fazer. Estou sempre criando algo; o difícil é parar.

Na oficina, tudo é criação. Se não tenho algo programado, a criatividade vem com força total. Mas quando há um plano, o foco muda: sigo a ideia, mergulho nela, e o pensamento viaja junto.
A descoberta do artesão
Não foi uma busca — foi uma descoberta.
O artesanato apareceu como quem acende uma luz dentro de mim.
Tenho facilidade de aprender só observando. Às vezes nem quero aprender, mas basta olhar e as possibilidades surgem na mente.
Quando tento fazer, a ideia do “como fazer” simplesmente vem — é assim.
Desde menino, a criação me acompanhava. Minha mãe pedia para eu desenhar nos tecidos da casa. Eu inventava flores, pintava com tinta para tecido, e via a casa se encher de cor. Na casa da minha avó, eu criava meus próprios brinquedos: carrinhos de lata de óleo com pneus de chinelo, placas pintadas à mão, cavalos de pau feitos de cabos de vassoura, bolas de meia, bombas d’água de PVC — tudo nascia da imaginação.
Brincar era descobrir. Com mangas verdes, eu fazia boizinhos usando palitos de fósforo como pernas. Com três latas de leite, criava carros que giravam em sentidos opostos. Com arame e uma roda de ferro, fazia curvas e sentia o mundo deslizar. Até rolar pneu na rua virava aventura.
Minha família sempre foi humilde, mas cheia de guerreiros. Com meu avô, aprendi a fazer apitos de folha de coqueiro — a natureza era nossa oficina. E nas chuvas, eu soltava cascas de coco como barcos nas correntezas, vendo-as enfrentar obstáculos e seguir viagem. Ali eu entendia que os limites são impostos, mas a criatividade é livre.
No quintal da minha casa em Cabedelo, desenhava estradas na areia, e ali estava o começo de tudo: o menino que inventava brinquedos virou o homem que cria mundos com as mãos. O artesanato não foi escolha — foi destino.
O Senhor Lisboa — Criação em Movimento
A Escola de Artes Alice de Almeida — o berço da minha arte
A Escola de Artes Alice de Almeida, em Cabedelo, é a marca viva da minha querida avó, Maria de Queiroz Marinho — mãe, educadora, guardiã, e a primeira pessoa que me mostrou a arte antes mesmo de a arte se apropriar de mim.
Não sei se foi intencional ou não, mas ficou guardado em mim: as memórias do menino travesso, curioso, e da avó apaixonada pelo seu neto Juninho, como ela e minha mãe me chamavam.
Foi em Cabedelo — terra de muitos artesãos — que dei meus primeiros passos num caminho incerto, mas cheio de possibilidades. Ali, entre tecidos, tintas, cocos, latas, e a sabedoria silenciosa da minha avó, nasceu o artesão, nasceu o homem do bem que sigo tentando ser.

O Senhor Lisboa — Criação em Movimento
Aqui estou eu, fazendo um boneco gigante. Bem, não é bem assim — depois que conheci os verdadeiros bonecos gigantes, percebi que os meus são cabeçudos, e isso me diverte. Já fiz dois enormes na cidade de Mamanguape, na Paraíba, para o bloco de carnaval Os Aripuas. Mas este agora é especial: é o Senhor Lisboa, e estou completamente empolgado.

O processo é quase um ritual: fazer a base, preparar a massa, lixar, observar o comportamento da escultura. E o melhor de tudo é, no fim do dia, olhar para o que está surgindo — ver a forma ganhar vida, como se o boneco respirasse pela primeira vez.
Deixe seu email para receber minhas novidades e passos do caminho.

O menino que inventou o próprio cinema
Enquanto trabalho, adoro ouvir minhas músicas. Elas me trazem calma e inspiração — é como se somassem às ideias, misturando ritmo e pensamento, transformando tudo em criatividade.
Quando finalmente paro, vou pra cama, relaxo e durmo… mas isso é raro. E quando acontece, eu me deleito. Pra isso, preciso de absoluto silêncio e escuridão — só assim o descanso vem. Esses momentos são preciosos, por isso aproveito quando chegam.
Olhando para trás
Depois de tantas invenções na infância, ainda me veio outra astúcia.
Eu pegava uma lâmpada já usada, retirava o bocal e enchia de água. Aquela água virava uma lente natural, ampliando a luz do sol. Com uma caixa de sapato, abria dois pequenos retângulos — um de cada lado — e posicionava a lâmpada no meio. Usando um espelho, eu guiava o feixe de luz para dentro da caixa, fazendo-o atravessar a “lente” improvisada.
Do outro lado, colocava pedaços de película fotográfica, negativos ou tiras de filmes de cinema que tinham quebrado e eram jogados fora. E assim, no quarto escuro, com o sol entrando pela brecha da telha, eu tinha o meu próprio cinema em casa.
Era simples, era inventado, era mágico. A imagem surgia ali, projetada pela luz que eu mesmo tinha domado. Aquele pequeno cinema me ensinou que a imaginação não precisa de ferramentas caras — só de coragem para experimentar.
Olhando para trás, vejo imagens e reflexos — do que aconteceu e do que me transformou. São relatos da memória, pedaços de tempo que ficaram, e que moldam o ser que sou hoje.
A infância, as descobertas, as invenções, tudo isso retorna como luz e sombra, mostrando que cada gesto, cada curiosidade, cada criação improvisada, foi me esculpindo por dentro.
Sou feito dessas lembranças que não se apagam, dessas pequenas histórias que, juntas, explicam o caminho que sigo agora.


