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Onde Tudo Começou

Sou compositor e cantor, e muito do que crio nasceu das histórias que vivi. A primeira delas começa com um violão — o violão do meu avô.

Na praia do Poço, em Cabedelo, entre cajueiros e casas simples de barro e palha, eu descobri o som que mudaria minha vida. Aquele violão de cordas de aço passava de mão em mão na família, mas sempre voltava para mim como um chamado. Foi ali, no terreiro do meu avô Joaquim, que aprendi que música não vem só das notas: vem da memória, da terra, da gente que amamos.

É desse lugar que minhas canções nascem.

O Violão da Praia do Poço

Havia um violão que parecia conhecer toda a minha família.

Não era apenas um instrumento: era quase um parente, desses que chegam sem avisar, ficam um tempo, somem, reaparecem, e sempre carregam histórias novas nas cordas gastas.

Tudo começou na casa do meu avô Joaquim, na praia do Poço, em Cabedelo.

Aquele pedaço de mundo era um refúgio: cajueiros espalhados como guarda-sóis naturais, o cheiro do mar entrando pela porta, e a casa simples — paredes de barro, madeira firme, telhado de palha — que parecia respirar junto com a gente. Era uma casa indígena, cabocla, feita do jeito antigo, do jeito certo.

Meu avô criava galinhas e um galo valente, daqueles que andam como se fossem donos do terreiro. Eu adorava visitar aquele homem bom, de fala mansa e mãos que sabiam transformar folha de palha de coqueiro em apito. Até hoje sinto orgulho de ter aprendido aquilo com ele — um segredo simples, mas cheio de magia.

Minha avó Eliza era outra força da natureza.

Acordava antes do sol, acendia o fogo, preparava café cheiroso e bolacha seca. A cozinha dela tinha o gosto da vida simples, da vida que não tem pressa. Minha mãe amava aquele lugar, amava os pais, e eu seguia com ela, sempre feliz de chegar.

E lá estava o violão.

Aço nas cordas, madeira avermelhada, um brilho que chamava a mão da gente. Eu não sabia notas, não sabia acordes — mas sabia sentir. Tocava como quem conversa, como quem descobre um amigo novo. E aquele violão era paixão coletiva: passava pelo meu avô, pelo meu tio Aluísio, pelo meu primo Amilton, pelo Almir, pelo tio Joca… e depois voltava pra mim. Às vezes ninguém sabia onde ele estava, mas ele sempre reaparecia, como se tivesse vontade própria.

Meu tio Aluísio, aliás, era outro personagem bonito dessa história.

Me emprestava o barco a vela para eu brincar no mar. Barco de madeira naval, pesado, que a gente empurrava com rolos de coqueiro  — técnica antiga dos pescadores da praia do Poço. Era um ritual, quase uma dança, colocar o barco na água.

E no meio de tudo isso, a Bisa -Avó  Cumadre — mãe da minha avó, mãe da minha mãe — completava o círculo. Uma família inteira feita de simplicidade, afeto e arte natural.

O violão ficou comigo depois que meu avô partiu.

Eu cuidava dele como quem guarda um pedaço de alguém que ama. Até que um dia, sem querer, uma prima bateu o braço do violão na parede. Quebrou. Pedi ajuda a um amigo para consertar… e foi a última vez que o vi.

Sumiu.

Como o som que se perde no vento.

Mas a verdade é que ele nunca desapareceu de mim.

O violão vive na memória — no cheiro da casa de barro, no café da minha avó, no barco do meu tio, no galo valente, nos cajueiros, no sorriso da minha mãe, no apito da folha da palha de coqueiro, no amor que atravessa gerações.

O violão era só madeira e cordas.

Mas a história… a história é essa, eu vos conto.

“Lightbox”

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Assinatura final

© Músico — Paraibano — Nordestino — Brasileiro — nacionalidade portuguesa — habitante da França

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