O Sapato e o Caminho

Às vezes a vida muda
porque tem que mudar.
O caminho antigo me servia
como um bom sapato —
confortável, fiel,
feito à medida dos meus passos.
Mas o tempo, esse artesão invisível,
foi criando calos inevitáveis.
Talvez o costume,
talvez o excesso de uso,
talvez o apego.
Eu poderia ter outros sapatos,
para não gastar tanto um só par.
Mas gosto desse.
É quase impossível não usá-lo.
Talvez bastasse dar manutenção,
lustrar, cuidar, preservar
o que já me leva tão bem.
O “talvez” me tira de um lugar
para me pôr em outro.
Me faz pensar,
me faz ver o que tenho.
Sim — cuidar é a forma de preservar.
E isso serve para tudo na vida:
para os sapatos,
para os caminhos,
para os afetos,
para o próprio tempo.

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